Teor alcoólico, uma questão de moda

Sábado, 2 de Abril de 2011, publicado por Inês Cruz | Enológa
Teor alcoólico, uma questão de moda

Em termos mundiais, durante a última década, o teor alcoólico médio nos vinhos sofreu uma inflação de cerca de 1,5 graus. Até ao início dos anos 90, época em que os 12 a 12,5% constituíam o nível médio de teor alcoólico da maioria dos vinhos de mesa, os vinhos com mais de 13% eram geralmente tidos como "quentes". Hoje em dia, 14 a 17% passaram a ser os novos valores preconizados, pelo que os vinhos "quentes" de outrora são hoje considerados "frescos" ou até mesmo "leves".

Mas, porque será que existem tantos vinhos com elevado teor alcoólico?

O aquecimento global é, por norma, considerado como sendo o responsável, porém não é o único fator associado a estes novos teores alcoólicos presentes nos vinhos.
A tecnologia, regra geral, atrelada à ciência, apresenta um peso preponderante. De fato, hoje em dia, as vinhas são manipuladas com mais eficiência, de modo que seus frutos sejam colhidos mais maduros, logo com mais açúcar, pelo que consequentemente irão dar origem a vinhos com maior teor alcoólico. Outro aspecto a ser levado em consideração é o fato de que, contrariamente ao Jerez, Vinho do Porto ou Madeira, os quais são obtidos pela suspensão da fermentação alcoólica através da adição de aguardente vínica, grappa ou brandy, que por sua vez, impede que todo o açúcar presente nas uvas seja convertido em álcool, bem como para fortificar esses mesmos vinhos até cerca de 20%, os vinhos de mesa naturalmente fermentados não deverão, portanto, atingir os 17%.
Na verdade, as leveduras naturais não conseguem sobreviver em ambientes com elevado teor alcoólico, contudo recentemente foram desenvolvidas novas linhagens de leveduras mais robustas, que convertem os açúcares das uvas de forma mais eficiente. Todavia, para além da tecnologia e ciência, a cultura e a moda também têm impulsionado os níveis do teor alcoólico em vinhos. De fato, os mais variados concursos de vinho mundo afora, bem como certos gurus que impõem as suas tendências pessoais, têm desempenhado um papel extremamente notório, revelando a tendência do público em geral em preferir vinhos com elevado teor alcoólico. Segundo Paul J. White, famoso crítico de vinhos norte-americano, os vinhos que possuem maior teor alcoólico são geralmente os que se destacam entre a multidão, conquistando assim medalhas de ouro e pontuações superiores a 90 pontos.


Isto acontece porque o álcool tem uma doçura natural, que amplifica o seu sabor, para além de que a sua espessa textura faz com que o vinho seja mais suave, mais completo e mais denso. E como o álcool tem "perfume", os aromas do vinho chegam mais facilmente ao nariz.

Mas será que esta tendência veio para ficar?

Eu, pessoalmente, prefiro vinhos que se possam degustar e avaliar no seu todo, com todas as suas nuances e seus típicos aromas e não algo que apenas se possa extrair o marcante e ardente sabor a álcool, prefiro algo mais natural... como tudo, é uma questão de gosto (e de moda)!

 

 


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