
Uma pessoa sugeriu: "Você já experimentou contar sua vida a partir das árvores?". Automaticamente meu pensamento viajou no tempo. Voltei aos dias da infância em passava férias num sítio da família de minha mãe.
Havia uma árvore enorme bem em frente à casa principal. Os meninos subiam por seus grossos galhos e chegavam quase ao topo. Eu observava admirada.
Próximo à porteira havia um grupo de árvores e uma delas era minha preferida. Não muito alta, ela tinha galhos baixos e era delicada. Era onde eu vivia trepada. Ela não oferecia perigo e era linda. Eu adorava ficar ali por horas, sonhando acordada.
Atrás da casa tinha uma tamareira que se fechava em copas com suas longas palmas formando um bom esconderijo. Enfiada ali embaixo ficava comendo as tâmaras caídas no chão e observando silenciosamente o que acontecia ao redor.
Indo para o curral havia um gigantesco abacateiro e uma delicada jabuticabeira, onde eu também adorava ficar ciscando. Já o peral era um lugar que eu evitava percorrer sozinha. Não me sentia acolhida por aquelas árvores.
Atrás do chiqueiro havia pés de caqui que se dobravam quando carregados pelas frutas doces, polpudas e vermelhas. Ao lado deles havia limoeiros, mexericas e laranjeiras. Dentre elas uma de grandes laranjas azedas que minha mãe colhia para fazer doce.
Quando estava na cidade, nos finais de semana íamos a sede de campo do clube e eu adorava passear pelo bosque. Aquele bosque era meu! Ali me sentia segura, andava atrás dos pés de amora, subia e descia pelas trilhas. Ficava encantada com a visão da outra margem do lago que separava o bosque do parque. Era como transpor um quadro. Visto dali o mundo que nós habitávamos era diferente e tão distante!
Depois que meu filho nasceu, íamos muito ao sitio da família de seu pai e ali também colhi muita laranja, muita mexerica e muitas amoras. Nos passeios a cavalo, durante o verão, íamos atrás de deliciosas mangueiras carregadas e também visitávamos centenárias árvores isoladas no alto dos pastos.
Seria encantador se pudesse me lembrar de todas as árvores que admirei ao longo da minha vida. Mas o tempo é passado e no presente só tenho por perto as árvores da minha rua e dos parques onde passei tardes inteiras com minha filha, o cachorro e nossas brincadeiras.