
Eles são descendentes de japoneses e suas famílias vieram
para o Brasil em diferentes condições, mas no mesmo período. O
pai dela era agricultor, o dele professor. Foram morar em cidades
do interior do estado de São Paulo e o destino fez com que se
encontrassem na faculdade.
Namoraram durante cinco anos e ele conta dessa
época: "Depois de concluir os estudos a gente tinha que cuidar
da família, devolver aos pais tudo o que fizeram por nós. Essa
era a primeira obrigação depois de se formar, ajudar a família por
gratidão".
Tiveram que esperar, mas enfim chegou o tempo de se casar.
Ele condicionou: "Para mim casamento é para sempre, não tem
essa coisa de se não der certo separa. Vamos ficar juntos até
morrer, então vai ter que ter amor, porque se não, a gente não vai
agüentar".
Ela concordou. Casaram, tiveram um casal de filhos e
trabalharam juntos durante 40 anos.
Agora, ambos aposentados, cuidam um do outro e, além
do amor, existe uma cumplicidade entre eles nessa nova fase da
vida: colaborar para que cada um tenha conforto nas limitações e
disfunções físicas decorrentes da idade.
Há pouco tempo ela passou por uma cirurgia que exigiu
muitos cuidados, certas abstinências e muito repouso. Ele assumiu
novas responsabilidades na casa, como lavar a louça, coisa que
antes não fazia.
Também tiveram que se adaptar a uma rotina de idas e
vindas de enfermeiras e faxineiras que se revezam nos cuidados
com ela e com a limpeza. Ele sempre está à disposição para o
que for preciso e aprimora sua paciência com as exigências dela.
Sem reclamar, comenta: "A gente discute de vez em quando,
mas nunca brigamos de verdade. Agora eu uso um aparelho
auditivo e quando ela começa a reclamar eu tiro o aparelho. Ela não
percebe, mas eu não escuto nada, assim não tem jeito de brigar".
Diz isso e ri achando graça.
Ela me olha com seus olhinhos assustados e murmura com
sua voz delicada: "Eu tenho medo de não ficar boa novamente!"
Sua recuperação está sendo lenta, porém gradativa e seu
médico já avisou que em breve tudo voltará ao normal.
Enquanto isso, acompanho de perto seu progresso,
emocionada com a história de amor que seu marido vai me
contando aos pedaços.